Quero ser uma pessoa, antes de ser o seu amor
Quero ser uma pessoa, antes de ser o seu amor.
Eu sempre gostei de romances, mas não pelos motivos certos. Eu gosto de como a relação romântica é uma escolha narrativa que faz um personagem entrar em contato com o mundo fora dele. Eu aprecio a ideia de ter alguém que se interesse tanto por outra pessoa que queira ouvi-la e conhecê-la mais. Essa atenção apaixonada possibilita algo que supera a questão romântica: a necessidade humana de compartilhar a própria experiência existencial.
Mas essa não é a forma como a maioria das pessoas enxerga o amor. A capacidade de amar tem sido reprimida pela performance. Isto é, em vez de procurarmos conhecer alguém, entendermos as suas características únicas, nós pré-selecionamos mais do que a orientação sexual exige; nós buscamos uma performance de gênero (o que compreende a performance ideológica, comportamental, funcional etc.) buscamos um homem ou uma mulher que resumam e emulem um ideal pessoal e social.
E eu não estou falando dos requisitos que estabelecemos para qualquer relação (compatibilidade, ideologia, interesses etc.)
Claro, partindo também do pressuposto de que os papéis gênero em uma relação heteronormativa são diferentes dos de uma relação homoafetiva, mas o problema acaba sendo parecido: nós não estamos dispostos a amar o humano primeiro.
Por isso, para mim, é tão complicado entrar em uma relação em que eu tenha que cumprir um papel de gênero (porque é a partir do gênero que a sociedade tem elegido as qualidades para o pretendente perfeito), porque tenho que jogar fora todas as outras coisas que sou além de ser uma mulher. E é um pouco assustador o tanto de vezes que já interpretei esse papel em nome do flerte.
Uma história de amor que foge à essa regra é a contada no livro "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres", da Clarice Lispector. Uma narrativa romântica e, sobretudo, filosófica onde o amor é conduzido pela experiencia de conhecer outro ser humano.
Lóri, a protagonista desse romance, professora de educação infantil, conhece Ulisses, professor universitário, e passam a protagonizar uma história de autoconhecimento. Sim, o amor acontece como um resultado fatal.
Mas o que eu mais gosto na história é que ela não tenta não ser um romance, desde o início, sabemos que eles se desejam romanticamente. A diferença é como eles escolhem elaborar esse desejo de forma não convencional. Ou seja, não tem aquele plot de "comecei te amando como amigo e isso virou amor", mas sim, "isso é amor e, por ser amor, ele será humano".
"... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso." (Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres).
Porque nós costumamos lidar com o romance como se ele fosse um recorte da realidade onde as coisas acontecem de um jeito que o desejo não pode "se quebrar". Quero dizer, a gente esconde as partes feias e destaca as partes que imaginamos serem boas. Nós interpretamos o papel que todos os amantes ao longo da história interpretaram e esperamos que sejamos amados pelo que somos.
E, ai de quem ousar interpretar a si mesmo! Ai de quem for a um encontro sem máscaras!
Lóri usava muita maquiagem, uma máscara, o ideal de beleza por cima de um rosto de carne e osso. Não que usar maquiagem seja um problema real, mas a escritora usa a analogia para mostrar como nós nos evitamos a nós mesmos. Isto é, essa mascara só aparece para os outros, mas, se não tomarmos cuidado, caímos facilmente no auto engano, sem nos incomodar em lavar o rosto, porque, afinal, pelo menos não estou vulnerável, mesmo que eu não esteja sendo eu de verdade.
"Escolher a própria máscara era o primeiro gesto voluntário humano. Era solitário. Mas quando enfim se afivelava a máscara daquilo que se escolhera representar-se e representar o mundo, o corpo ganhava uma nova firmeza, a cabeça podia às vezes se manter altiva como a de quem superou um obstáculo: a pessoa era."
O amor dos protagonista se constrói e se fundamenta no conhecimento e no autoconhecimento. Lóri, vai se tornando mais reflexiva sobre a própria existência, pois conheceu alguém que lhe pergunta sobre a sua história, e isso a faz se perceber enquanto um ser humano. Pode-se se criticar que essa evolução pessoal se deu por um impulso masculino, mas a questão, para mim não é essa. Para mim, o amor tem que fazer isso mesmo, proporcionar ao ser humano naturalmente solitário (somos sozinhos dentro da gente) a repartição da própria existência. Sim, isso é quase bíblico demais, eu assumo.
Portanto, eu não quero o amor enquanto ele custar a minha identidade. Eu não quero amar um homem, quero amar uma pessoa, porque quero ser amada dessa forma. Porque o amor humano não exclui as imperfeições, não submete a mulher ao castigo da eterna juventude e nem impõe ao homem a obrigação de ser poderoso.

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