Índigo e Right Place, Wrong Person: as metamorfoses até o ponto certo e incerto da alma (parte 1)

 


Sinto que a vida estendida e esticada não passa de uma colcha de retalhos, com pedaços quase desconexos, mas muito bem costurados. As cores desses pedaços de vida são completamente diferentes.

Foi essa a minha percepção ao ouvir os dois álbuns do Namjoon. Sendo assim, bem como permite a interpretação subjetiva da manifestação artística, irei analisar esses dois álbuns a partir das minhas percepções.


ÍNDIGO (2022)

O primeiro álbum é o denominado Índigo (a coloração usada para pigmentar o jeans, por ser mais forte e durar mais tempo), lançado em 2022. Possui a seguinte frase de apresentação: “O último arquivo dos meus vinte anos”.

Em Índigo, Namjoon nos mostra uma versão mais inquieta, conflitante e investigativa de si mesmo. Eu diria que esses adjetivos representam muito bem os vinte anos, a fase em que a gente mais se pergunta quem somos e qual o sentido das nossas vidas.

Na primeira faixa do álbum, YUN, pode-se observar Namjoon determinar as coisas que ele não quer ser. Quando ele diz “Foda-se o criador de tendências. Eu quero voltar no tempo”, mostra que, embora ele ainda esteja à procura de quem é, há caminhos que ele se recusa a seguir. Essa é uma das minhas músicas favoritas, porque mais de um dilema está sendo confrontado aqui: o dilema de Namjoon e o que ele fará de si mesmo; e o dilema de um artista tentando coexistir entre jornada pessoal e imagem pública.

Quando ele diz "eu quero ser um ser humano, antes de fazer arte", ele reivindica a possibilidade de trilhar o caminho do autoconhecimento antes de criar uma marca permanente no mundo (pois esta é a maior exigência feita a um artista). O caminho de conhecer a si mesmo não é linear, lógico ou natural. Muitas vezes é preciso errar o caminho por vários quilômetros e depois voltar ao ponto de partida. Mas sabemos que essa liberdade de mudar não é dada aos artistas, pois as pessoas querem coerência.

Além disso, ainda na primeira música, Namjoon diz: "Você será um ser humano até o dia da sua morte", e isso significa que, talvez, essas inquietações sejam eternas. Isso me lembra do que a Clarice Lispector disse uma vez: "Quem nunca se perguntou: eu sou um monstro ou isso é ser uma pessoa?", porque ninguém possui as respostas mesmo! Porque é tão estranho ser um ser humano que a gente se questiona se está vivendo errado ou se é assim mesmo que um ser humano se parece.

Outra faixa que representa muito bem o álbum é Wild Flower. Em um dos trechos, o cantor diz: "A minha vida se tornou maior que eu", e essa frase entrou cortando em meu coração. No início dos vinte anos, ninguém é ninguém, mas, aos poucos, os caminhos parecem se fechar, nós parecemos fazer uma escolha quase imutável. Mas como assim? Até ontem eu não sabia o que fazer, por que agora parece não ter mais volta? E essa profissão que eu escolhi, mesmo sem gostar, será o que eu farei para sempre? Como assim eu tenho que manter essa imagem que eu, cegamente, construí para sempre? Quando esse caminho provisório se tornou a minha estrada eterna?

"Quando toda essa honra virou uma forma de opressão. Por favor, levem embora essa minha ganância." Como todas as escolhas aparentemente corretas se tornaram grades de uma cela? Quando isso acontece, o mundo realmente parece se fechar ao nosso redor. A força para se libertar é difícil de ser encontrada, pois o seu mundo te comprime, não te dá espaço para pegar o impulso necessário para quebrar as paredes dessa prisão. Contudo (estou escrevendo isso chorando), o refrão dessa música se repete como uma promessa de libertação:

Em um campo de flores, é onde estou
Terra aberta, é onde estou
Sem nome, é apenas o que eu tenho
Sem vergonha, estou no meu túmulo

Porque Namjoon explode essa cela em "flores de artifício". Porque o renascimento é explosivo, como fogos de artifício, mas singelo e lento, como o brotar de uma flor. Além disso, o refrão conta a história de um enterro. Namjoon usa o próprio “eu” do passado para adubar a terra para o seu “eu” do futuro. A explosão e o renascimento são violentos, porque quebram e matam uma vida antiga, mas bonitos e brilhantes, porque representam liberdade e espaço para recriar.

Há muitas músicas no álbum, mas, para mim, existe essa trilogia que se encerra com NO.2. Uma vez quebrada essa cela, não há garantias de que a vida se torne fácil e que outras celas não possam vir a ser construídas. Então, basta pensar:

Meu bem, não olhe mais para trás
Após passar por todas aquelas ondas
Mesmo que inúmeros "e se..." te incomodem
Agora você vai se proteger.

Esse processo de construir e destruir não acaba. O importante é que, ao olhar para os destroços da vida passada, nós encontremos a prova de que tudo muda, mas nunca um arrependimento, uma inquietação pelo que a vida poderia ter sido. Mas "meu bem, não olhe mais para trás. Qualquer caminho que tome, sempre haverá arrependimentos." Namjoon diz que essas vidas passadas serão como um bônus da vida que acontece, mas elas não precisam ser a sua história toda, e isso é quase a mesma coisa que a Clarice Lispector disse na crônica O grupo, quando reflete sobre as coisas inúteis que ela já havia feito na vida — a faculdade errada ou o amor errado —, mas "quantas outras coisas inúteis eu já havia vivido. Uma vida é curta: mas, se cortarmos os pedaços mortos, curtíssima ela fica."

É preciso viver, morrer, reviver e suportar todas as vidas passadas.

Portanto, em Índigo, Namjoon se debate tanto dentro de si mesmo, que fica difícil saber se a dor que ele sente é por essa luta, ou se a luta é por causa da dor. Ele busca respostas o tempo inteiro, e, muito embora chegue a algumas delas, ainda sente aquela permanente angústia de não entender. Índigo tem filosofia em excesso. Não me entenda mal: não há excessos na obra. Ocorre que o álbum é um retrato dos seus vinte anos — e, aos vinte anos, a gente só acumula.

Isso muda em Right Place, Wrong Person. 






Ouça o álbum completo: https://open.spotify.com/album/2wGinO7YWLHN2sULIr4a7v?si=2trXeaYVSi2t4IlTV81fQw


Continua...





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