Desculpe, mas eu não sou uma pessoa ambiciosa




Desculpe, mas eu não sou uma pessoa ambiciosa. 

Eu me sinto tão não ambiciosa quando penso que, se eu morresse hoje, teria vivido uma vida incrível. Não, eu não viajei muito, não comprei propriedades, não vivi um grande amor, mas tudo que vivi até agora foi suficiente.

Aqueles domingos de manhã, aos dez anos de idade, quando eu me arrumava para ir à igreja com a minha família. As tardes preguiçosas assistindo a filmes de ação.

As vezes em que olhei pela janela do ônibus e observei pessoas vivendo, como se a vida não fosse um absurdo, como se existir não fosse um milagre.

Todas as três horas das tardes já presenciadas por mim. O cheiro do dia pela metade, sol e sombra se misturando como uma promessa de noite fria.

As pessoas que amei por alguns segundos nas ruas, esquinas e supermercados.

A experiência de ver alguém gentil fazer jus à raça humana com apenas um ato (eu amo pessoas assim).

Os momentos vividos com os meus amigos. A eles, eu digo: tenho todas as fotos e sorrisos desses momentos gravados em meu coração.

E existem aqueles segundos quase transparentes, quando o corpo está prestes a adormecer e a gente pensa na vida que tem, nos momentos que viveu, nos arrependimentos, nos amores, nos amigos, nos milagres cotidianos.

Eu não sei para que tipo de alma tudo isso basta, mas, para a minha, basta tanto que transborda. Não sei se isso faz de mim uma pessoa sem ambições, mas, devo dizer, não exijo mais nada da vida.


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