Se a vida te der tangerinas e os heróis do cotidiano.

 


"Se a vida te der tangerinas" é exatamente o que eu procuro ver quando consumo histórias.

Quando o sonho juvenil não se realiza, por causa da vida mesmo — suas reviravoltas e injustiças —, talvez não seja o caso de resignação, como a maioria julga, mas de reinvenção.

Se reinventar. É o que a protagonista faz várias vezes em sua vida. O sonho vira outra coisa. O sonho de ser presidente do país pode ser substituído pelo de ser presidente de uma aldeia. O sonho de ser uma grande escritora pode se transformar no sonho de criar filhos com oportunidades melhores.

Mas que valor tem a vida, se o produto dela não for reconhecido e premiado? Que valor tem um talento, se ele não produzir lucro?

Mas eles têm valor! Ah, como têm.

Existe um filme chamado Waking Life, do diretor Richard Linklater, que traz a seguinte ideia:

O cinema trata, essencialmente, da produção da realidade — ou seja, a realidade é produzida. Para ele, não é um meio de contar histórias. Ele acha que o filme... que a literatura é melhor para contar histórias. Para Bazin, a ontologia do filme se relaciona com o que faz a fotografia, com a diferença de acrescentar o tempo e um maior realismo. (...) É isso que um filme tem que é sagrado. Este momento agora é sagrado. Nós agimos como se não fosse. Há alguns momentos sagrados e outros que não são. Um filme nos faz ver isso, ele emoldura isso em um quadro. E então nós vemos: "Ah, esse momento é sagrado!", a cada momento. Mas quem viveria assim? Porque, se eu olhasse para você e o tornasse sagrado, eu pararia de falar.

A vida, por si só, basta. Eu amo o cinema que lida com essa compreensão. É bom ver histórias de pessoas que se aperfeiçoaram tanto em suas habilidades que se tornaram extraordinárias. Mas é sempre bom ver pessoas que foram forjadas pela própria vida, mesmo sem perceberem, e conquistaram a habilidade de suportá-la. Os heróis do cotidiano. Os que não fundaram teorias, não inventaram vacinas, não ganharam medalhas de ouro, mas suportaram o peso de existir sem serem ovacionados por isso.

Eu quero o cinema que conte a história do homem que criou o computador, mas também quero o cinema que se encolhe atrás das câmeras e observa uma vida comum acontecer. Porque, como disse Clarice Lispector, "é preciso de muito esforço para alcançar a simplicidade".

A autora pode ter se referido a várias coisas, mas devo dizer que, em tempos de comida cara e vida barata, viver é mesmo um esforço sobre-humano.

Por isso, o que eu quero ver é um cinema que, além de fantasiar, lide com a realidade. Que mostre os cortes e os carinhos que a vida faz em um corpo vivo. Eu quero um cinema que emoldure e consagre as nossas dores e alegrias diárias.





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