EU QUERO (SER) VOCÊ: identidade e romances de formação

 

"Mas a maioria dos homens ama para se perder em seu amor."




Eu quero começar dizendo que perdoo todos aqueles que se sentiram perdidos no início da juventude. Tenho profunda empatia pelos contrabandistas de identidade. Quando você é uma criança, tudo é muito instintivo e espontâneo, a passagem desse estado de graça para a adolescência não é muito suave, então, saúdo aqueles que sobreviveram mesmo à custa de artimanhas um pouco vergonhosas. 

Em "Cartas a um jovem poeta", Rilke aconselha um jovem acerca das exasperações enfrentadas nessa fase da vida. O autor responde sabiamente as inquietações do jovem poeta "viva primeiro as perguntas", ele diz, antes de buscar as respostas que a sua alma anseia, entenda o que te faz questionar. 

Se você é jovem, você não está perdido, esse vazio é apenas aparente, uma vez que isso é espaço para algo começar. O que ocorre é que, por estarmos desesperados, nós buscamos preencher esse "vazio" com respostas convencionais. Estou vazio porque preciso de alguém que me complete, ou uma ideologia, ou uma carreira. 

Contudo, mesmo que você seja considerado relativista, deixe suas duvidas fermentarem. Admito que este é um conselho quase impossível de se seguir, pois exige uma maturidade que não existe na juventude. Na juventude nós temos sede de pertencimento e identidade, mesmo que esta não seja originalmente nossa. 

Essa temática do desenvolvimento da identidade me atrai muito, não só porque é interessante, mas porque é a fonte que os romances de formação bebem. O Romance de Formação é o gênero literário onde a narrativa mais evidente é o desenvolvimento pessoal de um protagonista jovem, que passa por situações e desafios que moldam a sua personalidade e alteram de alguma forma a sua visão do mundo. 

Um dos livros pertencentes a esse gênero é "O Demian", o protagonista é um jovem rapaz que está tão perdido quanto amedrontado com as ameaças do seu convívio social, isto é, com o assédio moral de seus colegas de escola. Há um desdobramento nessa história que nos leva a um dos temas principais desse texto. O protagonista, Emil Sinclair é surpreendido com a chegada de Alex Demian, que o defende daqueles que lhe humilhavam. A partir daí, Demian se torna o herói de Sinclair. Não apenas isso, mas floresce na alma de Sinclair uma adoração que supera a amizade e se confunde com outra coisa. Não, não estou falando de amor romântico, a confusão acontece no território da identidade. 

Demian foi capaz de resolver uma situação que Sinclair apenas desejava, mas nunca havia conseguido controlar, portanto, para se sair melhor na própria vida, ele precisaria se tornar outro, mais forte, mais confiante. Essa vontade desesperada de ser o outro, pode se misturar com o desejo de ter o outro. 

Sinclair passa a ser dependente de Demian, do que ele pensava, do seus ideais, sua personalidade, assim, quando ele vai embora, a sua figura é transformada quase que em uma espécie de Deus.

"Demian se tornara para mim algo semelhante a um astro: eu sabia que ele exercia influência sobre minha vida, que um vínculo nos unia, mesmo quando passávamos muito tempo sem nos ver ou sem trocar uma palavra." (O Demian)
 
O tempo que Alex Demian passa na história é pouco comparado ao reflexo que ele tem na vida inteira do protagonista. Sinclair não age segundo o seus próprios princípios, mas conforme o que seu "Deus" faria no seu lugar. O que ele não compreende é que o seu ideal também é parte da sua identidade. Sinclair ama Demian porque ele é seu reflexo. Reflexo dos seus desejos. No início se tornar Demian era um desejo, mas, inevitavelmente, o seu desejo se tornaria a sua identidade. Em algum momento, essa vontade de ser e ainda não ser, o fez pensar que nunca seria.

O Sociólogo Zygmunt Bauman fala exatamente sobre essa face narcísica do amor no livro "Amor líquido":

"Por vezes é difícil separar a adoração do ser amado da auto adoração. (...) Não é verdade que uma parte de meu singular valor foi repassada para a pessoa que eu escolhi — que recolhi na multidão de anônimos e comuns para ser minha, somente minha, companheira? No brilho ofuscante da pessoa escolhida, minha própria incandescência encontra seu reflexo resplandecente."

Sinclair queria o amor de Demian porque a ideia de ser amado por alguém que é tudo que você deseja ser é fascinante.

Igualmente, no livro "Me chame pelo seu nome", vemos a identidade se confundir com o desejo resultando no amor romântico. Na verdade, eu realmente não sei se a admiração se confunde com o desejo ou se admiração vai inconfundivelmente em direção ao amor. 

"Eu não sabia se queria ele ou queria ser ele." (Me chame pelo seu nome). 


Continua... 

 













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