Enquanto houver espaço, corpo, tempo...
Existem aqueles momentos em que a vida derrete na boca como um algodão doce. Doce e fugaz. Derrete tão rapidamente que a única prova da sua existência é o sabor deixado na língua. É um daqueles momentos em que o valor não se encontra na durabilidade, a lembrança compensa a falta.
Momentos deliciosos podem ser assim, segundos perdidos em uma multidão de dias e anos. Há outros momentos levemente mais compridos, mas há essas doses de graça que só um coração muito necessitado é capaz de ser grato.
Esses momentos não estarão presentes na minha biografia, na minha lápide ou em um texto que um amigo escreverá sobre mim quando eu partir. Levarei comigo todas as minhas lembranças doces, serei uma múmia sem ouro ao meu redor.
Existir exige de mim o movimento e o sistema requer meu trabalho, e eu obedeço. Mas nos intervalos, nos trajetos, entre o pulsar de um segundo e outro, eu levo um doce à boca. O sabor dura para sempre. Não nos lábios, não no paladar, mas nas rachaduras da minha alma, como o ouro consertando a porcelana.

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