Clarice Lispector: Aprendendo a morrer.
"E que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos, pois basta eu me cumprir, e só então viverei, só então seguirei o meu caminho em direção a morte sem medo."
A temática da morte na literatura de Clarice pode ser interpretada como
pessimismo ou melancolia, caso o leitor não compreenda que, quanto mais se
fala sobre a morte, mais a vida se torna valiosa.
Falar sobre Clarice me emociona, pois sinto como se vivesse em um tempo
posterior ao dela. Ao ler suas obras, suas inquietações sobre o significado da
morte e seu desejo, que não é sombrio, de experimentá-la, me vejo na própria
autora ao escrever o conto da galinha. A narrativa trata de uma galinha adotada
por uma família devido ao carinho de uma menina por ela:
"A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a de sobressalto."
"Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se os anos".
A morte é um destino fatal, não importa o interlúdio. A forma como ela conta essa história é poderosa. Para o narrador essa morte já era uma ferida consolidada, mas ele conta a história como se a vida ainda estivesse acontecendo. Toda essa distância de anos torna a morte apenas mais um desdobramento da história, mas, enquanto não acontece, a morte é o pior dos cenários possíveis. Ver a Clarice divagando sobre a morte depois de ela ter experimentado tal destino, me dá essa mesma sensação de "morreu e se passaram anos..."
Sêneca, em “Sobre a brevidade da vida”, diz que filosofar é aprender a morrer. Clarice faz isso em excesso. Ela considerada que a morte como o último prazer experimentado pelo homem. Os últimos contos escritos pela autora são insuportáveis de se ler, a agonia da morte se entrelaça com o alívio do descanso e o leitor fica perdido entre empatia e saudade, pois Clarice morreu e passaram-se anos.
Na verdade, a coletânea de seus contos nomeada “Aprendendo a viver” é que
é traiçoeira. O leitor é convidado a visitar o museu da vida da autora, observar
a sua existência se desenrolar junto com sua liberdade criativa, nós
acompanhamos as mudanças de seus interesses, suas ideologias e expectativas sobre
a vida. Vemos Clarice aprender a viver e, também, aprender a morrer.
Sou capaz de pensar que ela teoriza sobre uma vida após a morte, pois
teme o descontrole, como se ela tentasse compreender a outra vida com os símbolos
dessa, “serão férias em outra paisagem”, ela diz, como se tentasse traduzir
uma língua nativa para outra que ela não compreende, o que é quase infantil
da parte dela, mas continua sendo um meio esperançoso de não sucumbir ao pavor
do desconhecido.
Espera impaciente
O que eu chamo de morte me atrai tanto que só posso chamar de valoroso o modo como, por solidariedade com os outros, eu ainda me agarro ao que chamo de vida. Seria profundamente amoral não esperar, como os outros esperam, pela hora, seria esperteza demais da minha avançar no tempo, e imperdoável ser mais sabida do que os outros. Por isso, apesar da intensa curiosidade, espero.
Clarice
Lispector (28 de junho de 1969).
Eu também almejo chegar ao fim com o mesmo sentimento entusiasmado de descobrir
algo novo, mesmo que esse algo seja o meu último ato de curiosidade.

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