A luz entrando pelas frestas e o milagre dos ínterins
Ser um ser humano é ser um pêndulo que se apega ao lado que está inclinado. É penoso, porque é da própria natureza do pêndulo ir e, inevitavelmente, voltar.
O ser humano sempre lutou contra a inconstância da vida. Os rios secavam e toda uma cidade era movida para outro lugar. Os desastres naturais, os animais ameaçadores, a falta de comida, a invasão dos colonizadores, todos esses fenômenos sacudiam a estabilidade de toda uma civilização.Nós nos adaptamos às variações da vida e assumimos o controle de eventos que outrora nos destruíram, tudo isso catalogando as mudanças. Não temos controle sobre o tempo, mas o tornamos mensurável.
Tendemos a nos apegar ao lugar onde estamos, às pessoas que conhecemos e ao estado atual das coisas. Poucos de nós se preparam para o movimento inevitável do pêndulo. Até porque viver como errante não é o que desejamos, mas também não somos capazes de converter a natureza móvel da vida.
A solução seria se adaptar ao movimento pendular. Amar estar de uma lado, sem nunca rejeitar estar do outro.
O que me levou a essa divagação foi pensar em como eu sou seduzida a considerar como corretas certas decisões quando eu estou envolvida por um determinado cenário, contudo, quando ele se altera, outras escolhas se descortinam diante de mim.
Por vezes, eu estive tão angustiada que minhas opções pareciam finitas e a situação parecia irremediável, haviam apenas duas ou três opções na prateleira. Mas não. bastou o movimento do pêndulo para que a minha visão se alargasse.
Depois que você atravessa para o outro lado e tem acesso a outras opções, você não consegue compreender o que te fez tão cego. E isso é bom. A vista do outro lado é esperançosa. Quando o status quo for novamente alterado, a percepção de que nossa visão pode estar sendo limitada pela situação nos dará a compreensão que nos fará aguentar firme.
Além disso, esse movimento constante da vida nem sempre é de uma situação de sofrimento para uma de satisfação, ou de angústia para o desespero, ou mesmo de alegria para o êxtase. A verdade é que não temos como prever isso.
É a contragosto que percebemos que os momentos de felicidade não durarão para sempre, contudo, felizmente, o mesmo se aplica aos momentos de sofrimento. Embora, exista também os que se apegam ao sentimento de angústia, então, a alegria é que é mal digerida. Mas até para esses alguma alegria é inevitável.
Por isso, há algo que eu chamo de "o milagre dos ínterins", quando a vida se inclina a ser dolorosa, mas há espaços, frestas, doses de alegria, que vêm sem que a vida precise fazer um grande movimento. São as luzes que entram pelas frechas das paredes de uma caverna escura, nos fazendo compreender que esse movimento pendular da vida não é do bem definitivo para o mal absoluto.
Indicações de produções que abordam a Mudança
Filme: Procura-se um amigo para o fim do mundo (2012).
Música: Come Back To Me (RM).
Livro: Perto do coração selvagem (Clarice Lispector).
Música: Roda-viva (Chico Buarque).
Filme: Boyhood (2014).
Música: Calla (Wave to earth).
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