O grande Arco do Amor em Arcane

Em Arcane, o amor conduz, perturba, corrói, consola e, por vezes, enlouquece. Como ele, portanto, poderia ser a cura, se ele foi, por várias vezes, a maldição?


Sabemos que, desde corpos orgânicos até corpos mecânicos, o movimento é iniciado e mantido por uma energia determinada. Não existe um combustível universal para todos os objetos e seres existentes; cada um exige sua própria energia cinética para vencer a inércia.

Existe uma vertente filosófica que subdivide o homem em partes, contudo, sem alterar o seu tamanho. O homem é alma e corpo, acredita-se. Muitos hierarquizam essa relação entre a matéria e a "coisa" dentro dela. A "coisa" dentro dela é a parte menos compreendida, embora o Eu seja Ela; a desconhecemos completamente.

Sabemos do que o corpo precisa para se energizar: alimento, carboidratos sendo transformados em moléculas de energia. Mas há quem tenha descoberto o que alimenta a alma?

Há muitas alegorias que eu poderia, deliberadamente, apontar em Arcane, tendo certeza de que talvez nenhuma delas seja a mensagem que os autores quiseram nos apresentar. E é isso que farei.

A quase desconhecida força denominada Arcane penetra aquela sociedade como uma alma habita um corpo — um corpo social doente pelas infecções que afetam sistemas desequilibrados. Em Piltover, esse grande mal é a desigualdade que mutila esse corpo ao meio.

Piltover e Zaun.

Longe de mim querer assumir o discurso típico de final de filme, quando o personagem, após percorrer todos os caminhos, descobre que o caminho do amor sempre foi o correto. Não. Quando eu começar a falar que talvez o amor consertasse aquela sociedade, como um anticorpo potente atacando corpos malignos, saibam que eu não estarei me referindo ao Amor em suas formas individualistas, embora isso pareça contraditório. Dito isso: o Amor consertaria aquela sociedade.
Mas não qualquer amor — o amor em sua expressão social.

Um homem de cima ousou olhar para baixo, para Zaun, a cidade pisada. Pena que um homem é apenas um homem.

O pacto social, segundo Sigmund Freud, não é um pacto de amor, mas de sobrevivência. A civilização surgiu da necessidade de o homem se proteger: uma multidão de homens é mais forte que uma fera noturna. Mas, para a continuidade desse vínculo, o medo não deve bastar. Tem que existir algo maior. Algo que nos faça olhar para a Subferia e ver o reflexo da degradação da nossa humanidade, por deixarmos abaixo de nós quem deveria estar ao nosso lado.

O amor de um indivíduo não basta para salvar uma sociedade doente. Mesmo que esse indivíduo seja um cientista dotado da capacidade de construção e inovação, mesmo que ele carregue a própria Alma do Mundo dentro de si — ele é, inevitavelmente, um indivíduo: ama como um, julga como um e carrega o genoma do egoísmo dentro de si.

Piltover inteira teria que amar Zaun. Esse é o primeiro Arco de Amor em Arcane.

O amor solidário — uma rede emaranhada, embora nem um pouco uniforme e cheia de buracos, mas totalmente entrelaçada, como as marcas da manifestação física do Arcane que se apresentam no corpo e nos objetos que ela toca.

Contudo, o universo de Arcane continua tão arcaico que ainda entende o vínculo social como um produto do medo, sem saber que o medo só existe pela cisão — pela cidade estar partida ao meio —, e o Amor não é sequer considerado como um reparador dessa ruptura.

Como o amor pode não ser considerado, quando ele é a resposta mais óbvia e clichê conhecida?

Ora, para responder a isso, irei precisar citar Clarice Lispector (ou eu não me chamo Jéssica). A escritora, uma vez, disse que o amor possui contexturas — de ódio, de ciúmes, de ressentimento. O amor não produz só o amável; há elementos detestáveis nele.

Em Arcane, o amor conduz, perturba, corrói, consola e, por vezes, enlouquece.

Como ele, portanto, poderia ser a cura, se ele foi, por várias vezes, a maldição?

O amor uniu Powder e Violet, quando as duas tinham apenas uma à outra; o amor as afastou, quando a necessidade de proteger o ser amado se apresentou como raiva; o amor as arruinou, quando ambas caíram em um mundo onde nunca encontrariam outro amor como o que elas tiveram. 

E esse é o segundo Arco de Amor em Arcane.

O amor uniu Silco e Vander, quando os dois tinham apenas um ao outro; o amor os afastou, quando a necessidade de proteger o ser amado se apresentou como raiva; o amor os arruinou, quando ambos caíram em um mundo onde nunca encontrariam outro amor como o que eles tiveram. 

E esse é o terceiro Arco de Amor em Arcane.

Todo esse ressentimento é fruto de um amor mal realizado. Mas, por Deus, eu não culpo os amantes; eu simpatizo com eles, na verdade. Chego a me perguntar se é por isso que conseguimos ter compaixão até pelos vilões, os mesmos que colaboram para o aumento da dor naquela cidade. Porque o impulso inicial deles foi o de amar, mas foram confundidos pelas faces contraditórias do próprio amor.

"O amor era para ter esse rosto? O amor era para te ferir assim?"

Chego a pensar no quão miseráveis nós somos ao não saber manusear o amor. Tal como Jayce e Viktor devem ter se sentido em relação ao Arcane: todo aquele potencial cintilando na frente deles, o futuro brilhando nos olhos de homens finitos. Contudo, as intenções egoístas, a imprudência e o esquecimento de que estavam lidando com algo poderoso os fizeram distorcer o significado e, portanto, o poder do que tinham em mãos.

O Amor e o Arcane, ambos como uma força tão potente no meio de nós, resistindo ao nosso mau jeito em manuseá-los. Forças que poderiam costurar a ruptura do mundo.

A bênção se tornou maldição.

O amor criado em laboratório, com pouco mais que ideais. Um amor que não chegou a ser consumado, não realizou o que prometeu. Ideal. Platônico. O mais destrutivo dos amores. E esse é o quarto Arco de Amor em Arcane.

Não quero concluir nada nesta divagação, mas gostaria de deixar algo parecido com um final — que deixe a sensação de continuar em movimento...

Temo que o amor só se apresente como uma possibilidade quando a história é vista de longe.

O final de Arcane me parece uma contração do amor nascendo. Não sei se, ao crescer, esse amor se tornará um antídoto ou outra fonte de ódio, ressentimento, medo, rancor. Mas posso dizer que, quando os dois cientistas escolhem morrer, depois de olhar para o Arco de Amor de Viktor e perceberem que, embora aquilo seja horrível, ainda é uma tentativa desesperada de amar a humanidade — pois é daquela forma que aquele amor se apresenta: egóico, tomando tudo para si como um governante autoritário —, quando eles reconhecem isso e morrem por isso, eu sinto esperança.

Finalmente, eles reconheceram o amor mal manuseado. Assim, o Amor pode se apresentar como uma possibilidade, caso seja reconhecido dentre suas várias formas e depois decantado.

Por fim, mas sem nunca terminar, afirmo que amo Arcane, porque o amor da série é o que impulsiona todos os arcos ali realizados, desde o arco de dor até o arco de redenção.

Arcane é um grande Arco de Amor(es).








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