INDIGO, RM: A Arte de suspender o Tempo.
A arte não precisa suprir um apelo estético, o seu objetivo maior é suspender o tempo
Algumas pessoas estão encarando uma obra em uma galeria de arte. O objeto em exposição é uma figura irreconhecível, moldada com aparente desleixo e imperícia, os seus contornos não apontam para nenhuma forma viva existente e muito menos algum objeto já visto pelo olho humano.
"Não faz sentido", a maioria das pessoas pensa.
"Isso não é arte!"
"Uma criança faria isso!"
"A arte moderna é uma piada!"
Essa cena é bem relatável, não é? Eu mesma já julguei a arte pelo seu aspecto estético e não pelo seu efeito sobre a vida. Mas acho que a destreza do artista ou a qualidade acadêmica de uma obra não deveriam ser o que a torna uma Arte.
Eu já li sobre uma artista que falou o que eu vou a parafrasear, mas eu não recordo o do nome, infelizmente.
A arte não precisa suprir um apelo estético, o seu objetivo maior é suspender o tempo. Olhar para um quadro te faz estar de costas para o mundo, assim, a arte suspende a necessidade de tornar o tempo útil. Se uma pintura abstrata lhe despiu da utilidade, ela foi útil.
Eu gosto de imaginar que nesse cenário que eu criei acima existia uma ou duas pessoas que compreendiam isso. Elas estavam ali, paradas diante daquela obra superestimada, talvez uma delas estava em horário de almoço e a sua mente estava cheia de formalidades e linguagem ABNT, mas quando ela olhou para aquele emaranhado de pedra e tinta, a sua mente se tornou primitiva novamente, sem os adornos da civilização, apenas sangue e coração pulsando.
Clarice Lispector escreveu que uma criança poderia pintar como Picasso, mas o fato de Picasso pintar como uma criança é que é incrível, porque ele precisou se tornar inocente.
Com isso, eu não quero dizer que a arte não pode ser intencional ou racional, mas que ela pode também não ser nenhuma dessas coisas e continuar valiosa.
Mas eu posso afirma que, no ponto de vista da lógica de mercado, ela é inútil e até quando é monetizada, a arte não é essencial para a Estado. E eu concordo. A arte é inútil. Há muitas outras pessoas que vocês verão dizendo isso. Contudo, eu só posso dizer isso sem trair os meus princípios, porque sou totalmente a favor da inutilidade.
É a inutilidade que torna a vida possível, mesmo que a utilidade seja o que a mantenha.
O sociólogo Bauman, em A arte da Vida, reflete sobre um pensamento de um dos candidatos à Presidência dos EUA Robert Kennedy, quando disse que o PNB (Produto Nacional bruto) o indicador de atividade econômica do Estado e o valor de bens e serviços produzidos no país, não é um medidor de felicidade confiável:
"Nada diz sobre nossa compaixão e dedicação a nosso país. Em resumo, o PNB mede tudo, menos o que faz a vida valer a pena."
Tal pensamento resume a minha visão sobre a produção artística. A felicidade não vem do que é útil.
Além de outras músicas que eu também quero analisar, encontra-se a faixa YUN. A letra dessa música ecoa na minha mente quando eu penso sobre arte. O que o Namjoon cria aqui é mais que poesia em ondas sonoras, é um manifesto da criatura artística.
Quando ele diz, "Eu preciso ser um ser humano, antes de fazer arte", ele exige que a natureza mais primitiva dele seja respeitada, não sei se para o ouvinte ou para si mesmo. Ele deseja que a arte esteja à serviço da vida.
Além disso, a partir de outros trechos da canção, também podemos perceber que ele se incomoda com a arte como um produto de mercado, assim, ele também exige que deixem ele ser um ser humano, antes de produzir.
Eu vou voltar no tempo
Voltar no tempo, longe, quando eu tinha nove anos
Naquela época, quando havia apenas coisas boas e ruins
Acho que eu era mais humano naquela época"



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