Fernanda Torres e a envolvente dança das sinapses
O grande triunfo do intelectual não é se afastar da multidão e se isolar na montanha, mas descer e se relacionar com o mundo que aprendeu a compreender
Quando conheci a Fernanda Torres fiquei fascinada por sua personalidade e envolvida pelo seu processo de comunicação. As entrevistas dela são quase um monólogo teatral, não por existir técnicas de atuação na forma que ela se expressa, mas porque o que ela fala tem a mesma importância e beleza que existe em uma cena de teatro. Pois o teatro e o Cinema recortam do cotidiano uma normalidade artificial (pois a vida não é comum) e a torna um evento digno do nosso tempo e atenção.Quando a Fernanda fala, nós sabemos que ela tem repertório, mas ela não o evoca em prol da sofisticação, o que se nota é o que o ato de investigar a vida faz com a forma que um ser humano a enxerga. Ampla e repleta de detalhes.
Por exemplo, quando o assunto é sobre Amor, tal sentimento não pertence apenas aos filósofos, romancistas e cineastas, pertence aos amantes locais. Todos têm o que dizer sobre esse sentimento, quase como um assunto de domínio público. Mas o que eu pretendo dizer é que, apesar de nitidamente entender a filosofia, os romances clássicos, o cinema romântico, a Atriz se comunica com os amantes locais. Cara a cara. Pois a diferença da história de amor da dona Maria e da vivida pela Julieta de Shakespeare, é somente o meio pelo qual ela foi contada.
Nós esquecemos que a erudição não é nada sem o seu objeto de estudo, a vida crua. As sensações, os desejos, as emoções, o fisiológico. Todo conhecimento deve servir para que a vida comum seja possível.
Não permito que nenhuma reflexão filosófica me tire a alegria das coisas simples da vida. Sigmund Freud
Muito me fascina a Atriz compreender isso, misturando o erudito com o popular, pois sabe que eles nem deveriam estar separados, uma vez que um existe em função do outro. O problema é que poucos de nós podemos consumir cultura como se fosse uma necessidade básica. Lidar com as exigências mais básicas da vida já nos desgasta em excesso. Caso contrário, todos nós participaríamos da dança envolvente das sinapses, conectando literatura com dramaturgia, teatro com artes plásticas, o Brasil com o resto do mundo.
Mas é sempre bom poder ouvir essas mentes dançantes e concluir que o grande triunfo do intelectual não é se afastar da multidão e se isolar na montanha, mas descer e se relacionar com o mundo que aprendeu a compreender.
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