Eterno desejo de acontecer: Uma divagação sobre o potencial feminino (parte 1)


Eu não sou senão um estado potencial, sentindo que há em mim água fresca, mas sem descobrir onde é a sua fonte. Clarice Lispector.

 


Esse texto, que humildemente chamo de divagação (pois não ouso considerá-lo um tipo literário), é por si só um sintoma do problema que ele quer apresentar. Digo, eu só sou capaz de escrevê-lo porque sou uma crise de potencial ambulante desde os treze anos de idade. 

A crise de potencial é a minha amiga mais antiga. Mas confesso que eu sempre fui negligente com ela, pouco notei a sua presença, até começar a me incomodar com sua insistência em permanecer ao meu lado. 

Na verdade, a questão do potencial não é um problema exclusivamente meu, ouso dizer que antes de ser uma questão minha, era uma questão da filosofia. O homem enquanto potencia; A força inerente que pode se manifestar; O poder de poder.

Devo confessar também que pouco bebo da filosofia para divagar, não por não querer ler o que filósofos tão sábios escreveram, mas por temer não conseguir viver uma vida comum depois de fazê-lo.

Então, não confiem no meu sofismo. Mas, sim, eu li algumas coisa que me ajudam a pensar.

Dentre os textos que eu encarei e me encararam de volta, encontra-se o livro "Um teto todo seu" da Virgínia Wolf, esse texto escancarou para mim uma verdade que nunca foi encoberta:

A filosofia, a arte, a literatura, o cinema não possuem vozes femininas o suficiente para que as trajetórias femininas sejam discutidas e reverberem o imaginário popular da mesma forma que as trajetórias masculinas o fazem (todos conhecemos a jornada do herói). 

O "quem sou eu?" da filosofia não aspirava compreender o ser feminino. 

Assim, isso me fez pensar em como todos aqueles que se identificam com o gênero feminino podem começar a conhecer a si mesmos. 

Comecei a pensar se essa crise de potencial (eu escrevi isso cantarolando) pode ser o bichinho da filosofia me mordendo. O "quem sou eu?" reprimido tentando dar pé.

Igualmente, comecei a observar a arte na visão feminina e pude perceber algumas mulheres sendo mordidas por esse bichinho também. 

Então, passei a chamar toda e qualquer produção que lide com os questionamentos de "como ser uma pessoa no mundo?",  mas sob o a perspectiva de uma mulher, como a  Filosofia Feminina. 

Dentro dessa filosofia, existe uma vertente que eu chamo de Potencial Feminino. A vontade de ser algo e a certeza de que poderia ser. 

Eu realmente queria investigar o porquê de a gente se sentir assim. Se é por falta de futuro, isto é, a gente sabe que pode, mas esse poder todo não se aplica imediatamente. E, talvez, essa crise nasça da nossa ânsia de ser (agora, sem trabalho, espontaneamente) ou, então, não ser (de uma vez por todas). 

OU mesmo, da repressão sobre os desejos femininos ser algo ainda cravado no nosso subconsciente (e não só nele).

O quê é, meu Deus? nós, a sociedade, a natureza humana independente do gênero? 

Uma das filósofas dessa filosofia feminina é a cineasta Greta Gerwig, que na sua obra "Little Woman", nos faz perceber que uma das barragens do potencial feminino era a sociedade de 1868 e a sua misoginia. Eu poderia, ao citar o filme, falar sobre a protagonista que também é potencial fervendo, mas irei invocar a Emy March e toda o seu arco de ser ou não ser. 

Uma das frases ditas pela Emy poderia ser muito bem o título dessa divagação: 

Eu quero ser grande ou nada!

A personagem é uma pintura que só pode ser compreendida se observada lenta e atentamente. Algumas das suas atitudes podem nos levar a considerá-la apenas uma menina mimada ou egocêntrica o suficiente para desejar ser a melhor no que faz.

Mas sabemos que essas não são as cores principais da sua personalidade. 

A Emy pertence a uma sociedade que incentiva habilidades femininas na arte, mas apenas para adornar a personalidade das mulheres e as tornarem interessantes para o olhar masculino. Tocar piano, pintar quadros, costurar bem, nunca eram para exercitar o potencial feminino e, talvez, levá-las à prática mais séria da arte, mas sim para garantir que elas seriam escolhidas para o matrimônio. 

Emy sabia disso, sabia que sua produção artística nunca seria compreendida como o seu trabalho, por isso, apesar do seu notável talento, ela estava em desvantagem. Nunca poderia ser grande, nunca poderia deixar o seu potencial alargar-se e escorrer pelo mundo. Diante desse destino fatal, seria melhor ser nada, pois era o que tudo se tornaria de qualquer forma.

Nunca saberemos se sua carreira vingaria ou teria o destino que ela previu, mas sabemos o que tornou isso impossível no final.  

Além de Little Woman, eu adoraria me referir a La La Land para invocar outras vozes para a discursão, mas eu estaria me contradizendo, uma vez que a direção do filme não é feminina. Mas eu estaria mentido se dissesse que a cena do monólogo da brilhante Emma Stone não é a externalização da agonia de viver eternamente desejando acontecer. 

A personagem da Emma Stone é um contraponto para o argumento de que a crise de potencial é uma desculpa para quem não tem iniciativa de construir seu próprio sonho. Com Mia, acontece quase o contrário, todo o trabalho árduo da sua juventude e nem um sinal de resultado adiante, então, a personagem começa a questionar o próprio potencial. Se ela continuava fazendo tudo que estava ao seu alcance, enfrentando os obstáculos de uma área competitiva, fazendo testes e mais testes e sendo considerada insuficiente, só poderia ser porque ela não era do tamanho que pensava ser. 

Eis o cerne da angústia. O potencial é o que sentimos ser capazes de fazer ou é uma medida determinada pelos Outros? Mas um poder não deveria ser subjetivo, ou você voa, ou você não voa, não é?

















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